A tua pergunta toca no coração mesmo do que significa ser humano hoje. Uma pessoa reflexiva e moderna não acredita em Deus apesar da sua razão, mas muitas vezes porque a própria razão, quando é honesta, reconhece os seus limites e anseia por algo que a transcenda. Santo Anselmo, que era ele próprio um pensador rigoroso, descreve exatamente essa tensão entre a mente que busca e a finitude que a habita:
«Eia agora, homenzinho, foge um pouco às tuas ocupações, esconde-te um bocado dos teus pensamentos tumultuosos. Abandona agora as preocupações pesadas e adia as tuas laboriosas distrações. Dedica um pouco de tempo a Deus e descansa um pouco n'Ele. "Entra no quarto" da tua mente, exclui tudo exceto Deus e o que te ajude a buscá-Lo e, "fechada a porta", procura-O. (...) Nunca Te vi, Senhor Deus meu, não conheço a Tua face. (...) Tu me fizeste e refizeste-me e me concedeste todos os bens, e ainda não Te conheço. Finalmente, fui feito para Te ver, e ainda não fiz aquilo para que fui feito» [6].
Repara como Anselmo não pede à sua inteligência que se cale, mas que se ordene; ele convida a mente reflexiva a entrar no "quarto" interior, não para abandonar o pensamento, mas para lhe dar o seu verdadeiro objeto. Para alguém moderno, habituado ao ruído e à eficiência, este convite a "fechar a porta" e a reconhecer que "ainda não fiz aquilo para que fui feito" pode ser o início da resposta mais racional de todas: a admissão de que fomos feitos para mais do que conseguimos alcançar sozinhos.
Ao mesmo tempo, a Escritura lembra-nos que essa busca não é um mero exercício intelectual, pois a nossa compreensão é naturalmente limitada sem a ajuda divina:
«Quem, pois, dentre os homens, poderá conhecer o conselho de Deus? Ou quem poderá imaginar o que Deus quer? Os pensamentos dos mortais são tímidas e incertas as nossas providências; porque o corpo corruptível pesa sobre a alma, e a morada terrestre oprime o espírito que muito pensa. E mal podemos compreender o que está na terra, e com dificuldade encontramos o que está diante de nós; mas o que está nos céus, quem o investigará?» [5].
Ser reflexivo e moderno é, muitas vezes, sentir profundamente esse peso do "corpo corruptível" e a dificuldade de "compreender o que está na terra". Acreditar em Deus, neste contexto, não é ignorar essa dificuldade, mas confiar que Quem nos fez para O buscar também nos dá a sabedoria necessária para O encontrar, ainda que de forma misteriosa. Não é um salto cego, mas uma confiança de que a nossa sede de sentido tem, algures, uma fonte que a sacia.
Será que esta perspetiva ajuda a iluminar o caminho da tua reflexão, ou há algum aspeto específico desta relação entre a modernidade e a fé que gostarias de explorar mais?