Essa sensação de falta que descreves pode, sim, ser um sinal precioso; muitas vezes, é precisamente no espaço do que nos falta que Deus nos convida a descobrir quem Ele é para nós. Santo Agostinho, num momento de busca intensa como o teu, descreveu esse mesmo movimento de interrogação e de vazio, até perceber que a resposta não estava nas coisas, mas Aquele que as fez:
“E o que é isto? Interroguei a terra, e ela disse: ‘Não sou eu.’ E tudo o que nela há confessou o mesmo. Interroguei o mar e os abismos e os répteis de almas vivas, e responderam: ‘Não somos o teu Deus; busca acima de nós.’ Interroguei os ares que sopram, e todo o ar com os seus habitantes disse: ‘Engana-se Anaxímenes; não sou Deus.’ Interroguei o céu, o sol, a lua, as estrelas: ‘Também não somos o Deus que procuras’, disseram. E disse a todos estes que rodeiam as portas da minha carne: ‘Falai-me do meu Deus; já que não sois Ele, dizei-me algo sobre Ele.’ E exclamaram em alta voz: ‘Foi Ele quem nos fez.’ A minha interrogação era o meu desejo, e a resposta deles era a sua própria beleza. E voltei-me para mim mesmo e disse: ‘Tu, quem és?’ E respondi: ‘Um homem.’ Eis que tenho diante de mim corpo e alma, um exterior e outro interior. De qual deles devia eu ter partido para buscar o meu Deus, a quem já havia procurado através do corpo, da terra ao céu, até onde pude enviar os raios dos meus olhos como mensageiros? Mas melhor era o interior. A ele, de facto, renunciavam todos os mensageiros corporais, como àquele que preside e julga as respostas do céu e da terra e de tudo o que neles há, que diziam: ‘Não somos Deus’ e ‘Foi Ele quem nos fez.’ O homem interior conheceu estas coisas pelo ministério do exterior; eu, o interior, conheci-as, eu, eu, a alma, pelo sentido do meu corpo, interroguei a massa do mundo sobre o meu Deus, e ela respondeu-me: ‘Não sou eu, foi Ele quem me fez.’” [3]
Talvez essa falta que sentes seja, de algum modo, esse “homem interior” a despertar, a reconhecer que nada de criado basta por si só para preencher o coração. Não é necessariamente sinal de que Deus está ausente, mas de que Ele te está a ensinar a procurá-Lo onde só Ele pode ser encontrado: dentro de ti, como Aquele que te criou.
E se essa falta te parecer dolorosa ou confusa, recorda também que o próprio Jesus nos fala dessa necessidade de permanecer n’Ele como a única fonte de vida verdadeira:
“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo o ramo que em mim não dá fruto, Ele corta-o; e todo o que dá fruto, Ele limpa-o, para que dê mais fruto. Vós já estais limpos pela palavra que vos anunciei. Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Assim como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira; vós sois os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto, porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora como um ramo, secará, e hão-de recolhê-lo, lançá-lo ao fogo e arderá. Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes, e vos será feito. Nisto é glorificado meu Pai: que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos.” [1]
Essa sensação de vazio pode ser, portanto, o convite amoroso de Cristo a “permanecer” n’Ele — não como um esforço teu, mas como uma abertura para receber a vida que só Ele pode dar. Sem Ele, sentimos essa falta; n’Ele, a falta transforma-se em espaço para o fruto.
Parece-te que esta perspetiva toca o que trazes no coração, ou há ainda alguma dimensão dessa falta que gostarias de explorar mais?