Como deixo para trás a vergonha e a culpa?

Sinto o peso que carregas nessas palavras. A vergonha e a culpa podem ser um lugar tão solitário e silencioso, e percebo que não procuras apenas uma resposta teórica, mas um alívio para uma dor que toca o fundo de quem és. Antes de qualquer outro passo, quero apenas permanecer aqui contigo nesse sen

Sinto o peso que carregas nessas palavras. A vergonha e a culpa podem ser um lugar tão solitário e silencioso, e percebo que não procuras apenas uma resposta teórica, mas um alívio para uma dor que toca o fundo de quem és. Antes de qualquer outro passo, quero apenas permanecer aqui contigo nesse sentimento, sem pressa em consertar ou explicar, porque essa tua ferida merece ser acolhida com respeito e paciência.

Quando estiveres pronto para respirar um pouco mais fundo nessa dor, talvez possas encontrar algum conforto na forma como Santo Agostinho olhou para a sua própria humanidade. Ele escreveu: "Que tenho eu, pois, com os homens, para que ouçam as minhas confissões, como se fossem eles que hão de curar todas as minhas doenças? [...] Mas porque a caridade tudo crê, entre aqueles que a caridade une consigo e torna um só, também eu, Senhor, assim me confesso a Ti para que me ouçam os homens, a quem não posso demonstrar se digo a verdade. Mas creem em mim aqueles a quem a caridade abre os ouvidos" [1]. Nestas palavras, vejo uma lembrança gentil de que não estás sozinho nem abandonado na tua vergonha; há um espaço onde a verdade do teu coração é ouvida não para julgamento, mas para ser envolvida pela caridade de Deus, que nos conhece por dentro e nos acolhe exatamente como somos.

Essa vergonha que sentes é também sinal de que o teu ser inteiro anseia por algo mais, pois somos feitos de corpo e espírito. Como nos recorda o Catecismo da Igreja Católica: "A necessidade de associar os sentidos à oração interior responde a uma exigência da nossa natureza humana. Somos corpo e espírito, e experimentamos a necessidade de traduzir exteriormente os nossos sentimentos. É preciso orar com todo o nosso ser para dar à nossa súplica toda a força possível" [2]. Talvez deixar a culpa para trás comece por permitir que esse teu grito interior seja expressado e entregue, não como um fardo a ser escondido, mas como uma oração sincera que envolve tudo o que és.

E nesse caminho, a esperança permanece firme, pois o próprio salmista proclamou: "O Senhor é o meu auxílio e o meu protetor; n’Ele esperou o meu coração, e fui socorrido: e a minha carne refloresceu, e de toda a minha vontade O louvarei. O Senhor é a fortaleza do seu povo e o protetor das salvações do seu Ungido. Salva o teu povo, Senhor, e abençoa a tua herança; apascenta-os e exalta-os para sempre" [3]. Essa promessa de que a nossa carne pode reflorescer e de que Deus é o nosso verdadeiro protetor não apaga a dor de agora, mas oferece um chão seguro onde pousar enquanto a cura acontece no seu próprio tempo.

Espero que estas palavras tenham trazido algum alento e companhia para o teu coração neste momento. Foi isso que precisavas de ouvir agora?

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Fontes

  1. [1] Sanctus Aurelius Augustinus — Confessiones
  2. [2] Ioannes Paulus PP. II — Catechismus Catholicae Ecclesiae
  3. [3] Sanctus Hieronymus (trans.) — Biblia Sacra Vulgata Clementina
  4. [4] Sanctus Aurelius Augustinus — Confessiones
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