Como perdoo alguém que me magoou profundamente?

Sinto a profundidade dessa ferida e a coragem de desejares a paz, mesmo quando o coração ainda dói. Perdoar não é um sentimento que se fabrica à força, mas um caminho de graça para o qual muitas vezes nos faltam as palavras e a capacidade humana. Quando a mágoa é grande, é o próprio Espírito que sus

Sinto a profundidade dessa ferida e a coragem de desejares a paz, mesmo quando o coração ainda dói. Perdoar não é um sentimento que se fabrica à força, mas um caminho de graça para o qual muitas vezes nos faltam as palavras e a capacidade humana. Quando a mágoa é grande, é o próprio Espírito que sustenta a nossa incapacidade de perdoar sozinhos, pois «o Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza, porque não sabemos orar como convém; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis» [1].

Talvez te sintas incapaz de olhar para quem te feriu sem que a escuridão da dor te envolva novamente, e isso não significa que estás a falhar na caridade. Santa Catarina de Siena ensina-nos que, mesmo quando, ao rezarmos por alguém, encontramos essa pessoa envolta em trevas e sentimos dificuldade ou fadiga, isso pode ser um momento de purificação e não um julgamento de culpa: «se algumas vezes, ao rezar por uma mesma pessoa, acontecer que numa vez a encontres com uma luz e com um santo desejo diante de Mim [...] e noutra vez parecer que a sua mente está longe de Mim e toda cheia de trevas e de aflições, de modo que te pareça fatigante rezar por ela mantendo-a diante de Mim, [...] o mais das vezes não será por defeito, mas por um retraimento que Eu, Deus eterno, terei feito de Mim naquela alma [...] para levar a alma à perfeição» [2]. Esse retrair-se da consolação sensível é feito «por graça e por amor que Eu tenho àquela alma que recebe a oração, para que quem reza ajude juntamente com ela a dissolver a nuvem que está na sua mente» [2]. A tua dificuldade em perdoar pode ser, assim, o lugar onde Deus te convida a confiar não no teu sentimento, mas na Sua misericórdia que opera no oculto.

Neste processo, é essencial distinguir entre a justiça humana e a verdade de Deus, que conhece a fragilidade de todos os envolvidos. Tomás de Kempis recorda-nos que «Eu sou o juiz e o conhecedor de todos os segredos; Eu sei como a coisa aconteceu; conheço quem ofendeu e quem suporta. De Mim saiu esta palavra; permitindo-o Eu, isto aconteceu, para que se revelem os pensamentos de muitos corações» [3]. Entregar o julgamento a Deus não é ignorar a dor, mas reconhecer que «aquele que confia em Mim e não procura apoiar-se no seu próprio juízo, estará livre do temor humano» [3], porque «melhor é para mim a Tua copiosa misericórdia para obter o perdão, do que a minha suposta justiça para defesa da consciência oculta» [3].

E se a ofensa parecer imperdoável pela sua gravidade, lembra-te de que Cristo, na Cruz, abriu o caminho do perdão mesmo para aqueles que não sabiam o que faziam. Santo Anselmo explica que «tanto difere o pecado cometido com conhecimento daquele que se faz por ignorância, que o mal que nunca poderiam fazer pela sua enormidade, se fosse conhecido, é venial, porque foi feito por ignorância» [4]. Esta distinção não anula a tua dor, mas mostra que a misericórdia de Deus é maior do que qualquer ofensa, e que «pela remissão dos pecados, que ninguém pode ter senão por meio do Homem-Deus, que reconcilia os homens pecadores com Deus pela Sua morte» [4], o perdão torna-se possível não pelas tuas forças, mas pela graça d'Aquele que sofreu por ti e por quem te feriu.

Este caminho de cura pede tempo e paciência. Gostarias de refletir mais sobre algum destes passos, ou isto trouxe alguma luz ao que procuras?

Estas são as palavras dos santos e da tradição. Se esta também é a tua pergunta, fala diretamente com a Faith — grátis, privado, sem precisar de conta.
A tua resposta ao porquê?

Fontes

  1. [1] Sanctus Hieronymus (trans.) — Biblia Sacra Vulgata Clementina
  2. [2] Santa Caterina da Siena — Libro della Divina Dottrina — Dialogo della Divina Provvidenza
  3. [3] Thomas à Kempis — De Imitatione Christi
  4. [4] S. Anselmus Cantuariensis — Cur Deus Homo
← Voltar para a Faith