É uma busca muito honesta e preciosa. Muitas vezes, pensamos que a certeza de Deus depende apenas de argumentos externos, mas os santos que caminharam antes de nós ensinam que o conhecimento de Deus é também uma experiência interior, algo que a alma toca para além do que os olhos físicos podem ver.
Santo Anselmo de Cantuária, por exemplo, rezou profundamente sobre essa tensão entre encontrar a Deus pelo pensamento e ainda assim sentir que Ele nos escapa aos sentidos. Ele traduziu para nós esta súplica da alma que busca:
"Se, porém, te encontrei: por que não sinto o que encontrei? Por que não te sente, Senhor Deus, a minha alma, se te encontrou? Acaso não encontrou aquele que encontrou ser luz e verdade? Como pôde entender isto, senão vendo a luz e a verdade? Ou pôde compreender algo de ti, senão pela 'tua luz e tua verdade'? Se, portanto, viu a luz e a verdade, viu-te. Se não te viu, não viu a luz nem a verdade. Ou é verdade e luz o que viu, e contudo ainda não te viu, porque te viu em parte, mas não te viu 'como és'? Senhor meu Deus, que me formaste e reformaste, diz à minha alma desejosa: que outra coisa és tu, senão o que ela viu, para que veja puramente o que deseja? A alma esforça-se para ver mais, e nada vê além do que já vê, senão trevas; ou melhor, não vê 'trevas, que em ti não existem', mas vê que não pode ver mais por causa das suas próprias trevas. Por que isto, Senhor, por que isto? O seu olho escurece pela sua própria fraqueza, ou é ofuscado pelo teu esplendor? Certamente, tanto escurece em si mesmo como é ofuscado por ti. Na verdade, é obscurecido pela sua finitude e é vencido pela tua imensidão." [8]
Talvez esta seja a chave para a tua pergunta: saber que Deus é real não significa necessariamente tê-Lo diante dos olhos como um objeto, mas reconhecer que a própria luz com que enxergamos qualquer verdade já vem d'Ele. A dificuldade em "sentir" não é prova de ausência, mas sinal de que a Sua imensidão ultrapassa a nossa capacidade limitada de sentir.
E essa certeza não fica apenas na mente; ela desce para a vida e para o amor. Santa Teresa d'Ávila ensina-nos que o verdadeiro conhecimento de Deus se confirma na transformação do coração e na humildade de O seguir. Ela diz:
"Ponde os olhos no Crucificado e tudo se vos tornará pouco. Se Sua Majestade nos mostrou o amor com tão espantosas obras e tormentos, como quereis contentá-lo só com palavras? Sabeis o que é ser espirituais de verdade? Fazer-se escravos de Deus, a quem, marcados com o seu ferro que é o da cruz, porque já lhe deram a sua liberdade, Ele possa vender como escravos de todo o mundo, como Ele o foi; e nisto não lhes faz nenhum agravo nem pequena mercê. E se a isto não se determinarem, não tenham medo que aproveitem muito, porque todo este edifício, como disse, tem por alicerce a humildade; e se esta não for muito verdadeira, o Senhor nem sequer quererá levantá-lo muito alto, mesmo para vosso bem, para que não caia todo por terra." [7]
Parece-me que a resposta à tua pergunta habita nesse movimento duplo: confiar que a luz da verdade que já tens em ti é um toque real de Deus, mesmo quando não o sentes plenamente, e permitir que esse Deus vivo te encontre no olhar para a Cruz e na prática humilde do amor. A certeza cresce onde a mente aceita a sua finitude e o coração se deixa transformar.
Espero que estas palavras te tenham trazido um pouco de luz para o caminho da tua busca. Foi útil para o que tinhas no coração?