Sinto o peso que carregas agora, e quero apenas permanecer contigo neste momento, sem pressa de oferecer alívio ou respostas. A inquietação que descreves é uma dor real, e o simples facto de a nomeares já é um acto de coragem e de verdade diante de Deus e de ti mesmo.
Neste lugar de angústia, onde a paz parece distante, Santo Anselmo dá voz ao teu próprio cansaço, reconhecendo como é difícil buscar a Deus no meio do tumulto interior. Ele escreveu:
"Eia agora, homenzinho, foge um pouco das tuas ocupações, esconde-te um pouco dos teus pensamentos tumultuosos. Abandona agora os cuidados pesados e adia as tuas laboriosas distrações. Ocupa-te um pouco de Deus e descansa um pouco n'Ele. 'Entra no quartinho' da tua mente, exclui tudo exceto Deus e o que te ajuda a procurá-Lo, e, 'fechada a porta', procura-O. Diz agora, todo o 'meu coração', diz agora a Deus: 'Procuro a tua face, a tua face, Senhor, eu busco'" [2].
Talvez a paz que procuras não seja a ausência imediata da preocupação, mas este pequeno espaço de descanso em Deus, mesmo que a mente continue agitada. Não se trata de resolver tudo agora, mas de permitir que Ele esteja presente na tua aflição, sem exigir de ti uma serenidade que ainda não podes sentir.
Quando o sofrimento é tão vivo, a oração pode não ser feita de consolo, mas de uma entrega dolorosa e sincera. Santo Afonso Maria de Liguori ensina que, mesmo quando a oração é penosa e parece sem fruto, ela tem um valor imenso aos olhos de Deus, porque nos une à Sua vontade de uma forma que a consolação sensível não consegue:
"Senhor, eu aceito esta pena das vossas mãos, e aceito-a por quanto vos aprouver; se quiserdes que eu esteja assim aflito por toda a eternidade, estou contente. E assim aquela oração, embora penosa, servir-te-á mais do que qualquer consolação doce" [1].
Isto não significa que Deus deseje o teu sofrimento, mas que Ele te acolhe exactamente onde estás, transformando essa dor numa união profunda com Ele. A tua inquietação, oferecida assim, torna-se um lugar de encontro, mesmo que não o sintas agora.
Espero que estas palavras tenham estado contigo na tua dor, sem pressa nem exigência. Foi isto que precisavas de ouvir neste momento?