Como lidar com o luto depois de perder alguém que amo?

Sinto que o teu coração procura um caminho através de uma névoa muito densa, e quero apenas permanecer aqui contigo nesse lugar de dor, sem pressa de oferecer respostas que o luto ainda não pode receber. A perda de quem amamos abre um abismo, e é natural que, nesse silêncio, o próprio Deus pareça di

Sinto que o teu coração procura um caminho através de uma névoa muito densa, e quero apenas permanecer aqui contigo nesse lugar de dor, sem pressa de oferecer respostas que o luto ainda não pode receber. A perda de quem amamos abre um abismo, e é natural que, nesse silêncio, o próprio Deus pareça distante ou inatingível.

O Papa Bento XVI recorda-nos que até Jó, na sua dor imensa, deu voz a essa mesma angústia de não conseguir encontrar o Senhor no meio do sofrimento: «Quem me concederá que o conheça e o encontre e chegue até ao seu trono? [...] Para que eu saiba as palavras que ele me responda e entenda o que me diz. Porventura contenderia comigo com grande força? [...] Por isso, estou perturbado diante da sua face e, considerando-o, o temor me inquieta. Deus amoleceu o meu coração e o Todo-Poderoso me perturbou» [3]. Essas palavras sagradas acolhem o teu sentimento de afastamento não como uma falha tua, mas como parte do mistério da dor humana que o próprio Deus permite que se exprima diante d'Ele.

Santo Agostinho também conheceu essa escuridão e descreveu-a como um abismo dentro da alma, onde a tristeza parece regressar sempre, mas onde a fé murmura suavemente uma esperança que não depende do que sentimos agora: «E eu digo: 'meu Deus, onde estás?' Eis onde estás. Respiro em ti um pouco, quando derramo sobre mim a minha alma em voz de exultação e confissão, som de festa celebrante. E contudo está triste, porque recai e se torna abismo, ou melhor, sente ainda ser abismo. Diz-lhe a minha fé, que acendeste na noite diante dos meus pés: 'por que estás triste, ó alma, e por que me perturbas? Espera no Senhor.' [...] Espera e persevera, até que passe a noite, mãe dos iníquos, até que passe a ira do Senhor [...] até que amanheça o dia e as sombras se dissipem» [4].

Talvez lidar com o luto, neste momento, seja apenas isso: não exigir de ti a luz, mas permitir que a tua alma respire nesse pouco de Deus que ainda resta, mesmo quando tudo o mais é escuridão. A tua dor é real e tem o seu lugar sagrado; não precisas de a resolver hoje, nem de sentir consolo antes que o tempo da ferida tenha sido honrado.

Espero que estas palavras tenham trazido companhia para o que estás a viver, e não um peso maior. Sinto que consegui estar contigo nessa dor?

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Fontes

  1. [1] Benedictus XVI — Deus Caritas Est
  2. [2] Sant'Alfonso Maria de' Liguori — Uniformità alla Volontà di Dio
  3. [3] Benedictus XVI — Deus Caritas Est
  4. [4] Sanctus Aurelius Augustinus — Confessiones
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