Sinto o peso dos anos que mencionas e a coragem silenciosa que existe nessa pergunta. Antes de falarmos de qualquer passo ou caminho, quero apenas permanecer aqui contigo nesse lugar de retorno, reconhecendo que a dor do afastamento é real e que o desejo de voltar já é, em si, uma forma de Deus te acolher antes mesmo de dares o primeiro passo. Não há pressa nem exigência neste momento; há apenas o respeito pelo tempo que a tua alma precisou viver e pela verdade que agora te move.
Nesse silêncio do retorno, pode ser que sintas o vazio como uma acusação, mas Frei Luís de Granada oferece-nos uma perspectiva que não condena, mas sim revela a profundidade do amor que te espera: «Quem diria ao homem, quando tão despido e tão inimizado se sentiu com Deus, que andava buscando os recantos do paraíso terrestre para se esconder, que viria tempo em que aquela tão baixa substância se unisse numa pessoa com Ele?» [1]. Repara que o texto não fala de um Deus que exige explicações sobre os anos perdidos, mas de um Mistério de união tão radical que a nossa baixeza e o nosso escondimento foram, de antemão, abraçados pela Sua presença. O retorno não é um exame, é um reencontro com Alguém que nunca deixou de buscar a união contigo, mesmo quando te escondias.
São Agostinho, que também conheceu a dor de uma longa separação, descreve esse movimento não como um julgamento, mas como uma misericórdia que nos envolve antes de compreendermos: «Tremi de medo e, ao mesmo tempo, inflamei-me de esperança e exultei na tua misericórdia, Pai. [...] Tu, Senhor, já tinhas glorificado o teu Santo, ressuscitando-o dos mortos e colocando-o à tua direita, donde enviaria do alto a sua promessa, o Paráclito, o Espírito da verdade. E já o tinhas enviado, mas eu não sabia» [3]. Talvez tenhas estado afastado sem saber que o Espírito da verdade já tinha sido enviado para ti, que a misericórdia já estava ativa no teu regresso. O medo e o cansaço que sentes são humanos, mas a esperança e a exultação na misericórdia divina são a resposta que Deus já está a sussurrar ao teu coração, recordando-te que Ele te conhece e te espera com a paciência de quem sabe que o amor vence o tempo.
Espero que estas palavras tenham acolhido o teu coração exatamente onde ele está agora, sem pressa e sem peso. Foi isto que procuravas neste momento?